Momento Inspirativo #5


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E então, me tocaram. Um, dois, trinta. Trinta! E não se importavam pois, enquanto riam e matavam ali o meu eu. Eles gravavam, riam, destruíam-me. As vozes me acusam. "É culpada" "É culpada" "É culpada". Sou eu culpada porque me doparam. Sou eu culpada porque me estupraram. Sou eu culpada porque me mataram naquele dia, deixando apenas que meu corpo acordasse e seguisse. Era eu tendo pois os sonhos destruídos, a vida arrasada e o coração despedaçado. Era eu quem tinha a alma perdida naquela noite, sob aquela cama, sendo tocada quando não queria. Por homens que eu não queria. 

Morri eu naquele ônibus, quando ele se aproximou lentamente do meu corpo e sem o menor pudor, matou-me. Ele, abusando do que acreditava ser o mais puro prazer, enquanto eu tinha a vida esvaída. E por quê? Por ser mulher. Por usar short. Por ter saído de casa ou por querer ir curtir alguma festa. Fui eu quem foi castigada quando você resolveu me tocar, mesmo eu dizendo não querer. Mas eu sou mulher, não sou? O que eu tenho a rejeitar? E eles gritam que eu sou culpada. O que queria eu e uma amiga, viajando "sozinhas"? Cadê um homem por perto? Sim, culpada eu que dei "sopa". Devo eu ser estuprada por ser mulher? Por quê? 

Os dedos em riste na minha direção. E eu, recolho-me. Grávida de um alguém que não sei, que não permiti que se aproximasse, mas que sequer ouviu meu clamor. Que não viu meu pavor, que não sentiu meu medo, que não se intimidou aos meus soluços. E eu chorei, e eu gritei e por fim, me calei. 

Por que dizer? Vão me acusar de ter merecido. E eu lavei meu corpo, enxuguei a alma e fiz de conta que estava tudo bem. Era eu, mulher. E sou eu que me escondo, me envergonho, tenho medo. Que me cubro por inteira, dos pés a cabeça, e ainda sou estuprada. Que estampo as manchetes do jornal. E que todo mundo precisa ressaltar na matéria que eu tinha bebido. Que eu tinha ido curtir na balada. Que os justificam, que os protegem, que me punem. Sou eu mulher, que sou estuprada, agredida e punida por todas as pessoas. Sou eu, ao final, quem morre. 

Leia mais textos de Vanessa Ribeiro no blog Quase em Crise

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