"Seria este o destino das mulheres?"

 

Restos de nós, Bia Onofre
Título: Restos de nós: Seria este o destino das mulheres?
Autor: Bia Onofre 
Editora: Chiado
Ano: 2015
ISBN: 978-989-51-2270-7 
Páginas: 192
Onde comprar: Chiado - Livraria Cultura
Sobre a mesa do escritório, o laptop dela abandonado. Aproximou-se, o desassossego aumentou. Veio a tentação de vasculhar os arquivos e penetrar no mundo da esposa, nas anotações que ele desconhecia. Não era do seu feitio, mas por que não? Ela nunca saberia. O dilema moral durou pouco. Usando a mão do médico que alcançava um porta-retrato, o destino esbarrou no teclado e as estrelas da tela de proteção pararam de piscar. Um texto desconhecido, porém familiar, surgiu diante de Rodrigo. Mais de sessenta páginas datadas. Ficou surpreso. Não imaginava que Mariana mativesse tais registros



Olá pessoal! A resenha de hoje traz um tema muito especial. Por isso vou procurar fazê-la de uma forma um pouco diferente e no final vocês entenderão o meu motivo. 

A leitura de Restos de Nós, chegou a mim como aquela brisa que de repente vem nos toca de leve e já sai pegando lugar na janela do coração. Foi a amor a primeira vista! E olha que o livro nem estava em minhas mãos ainda. Recebi um convite da autora Bia Onofre  e depois de ler a sinopse não pude recusar.

Bem, o livro chegou e minha paixão aumentou sabe aquele livro que parece seda. então, era essa. As folhas me encantaram resistentes e ao mesmo tempo muito delicadas... ( não se assustem, eu tenho umas coisas meio estranhas assim mesmo) Mas continuando nosso assunto... Eu esperava muito do livro e ele não só me satisfez, como foi além do que eu esperava e isso me deixou muito feliz.

Restos de nós conta as histórias de Maria Clara e Mariana duas mulheres que existem, amam, pensam, desejam, lutam,  mas que de alguma forma são aprisionadas pelas condições sociais de seu tempo. O espaço físico escolhido pela autora para o registro dos acontecimentos foi o bairro da Gávea onde as duas personagens residiam cada uma à seu tempo, Maria Clara em 1855 e Mariana em 2005.

Separadas por anos e ligadas por um lugar, talvez algumas pessoas, elas nos falam da vida com uma profundidade que é impossível não se envolver. Conhecemos as agruras de nossas personagens a partir de seus diários. Maria Clara começou a escrever, pois foi alertada pela tia que a vida de casada poderia não ser tão fácil quanto imaginava. Então, que a escrita lhe fizesse alguma companhia.  Mariana, por sua vez, começa a fazer caminhadas com o objetivo de exercitar seu corpo e para controlar seu ritmo, ganhos e perdas começa a registra números e sentimentos em seu diário eletrônico.

Restos de Nós - Bia OnofreA leitura se intercala entre relatos de Maria Clara e Mariana as duas infelizes com a vida que estão levando. A primeira se vê confusa e agitada, pois depois do casamento (arranjado pelo pai) não foi tocada pelo esposo;  a segunda, tensa, amargurada pois há muito não sabe o que é uma vida conjugal feliz. Principalmente depois de tê-la experimentado com o seu próprio esposo. As duas tentam se livrar, procuram meios para sair das tensões e procurar um lugar de mais conforto,  mas na hora de agir algo lhes impede deixando-as presas à uma realidade que não mais lhes pertence, porque entenderam que não é desta realidade que gostariam de viver.

Vocês devem ter achado estranho meu grifo na palavra existem ali acima. Mas uma questão que muito me chamou atenção neste cenário de opressão é o fato de, sobretudo, as duas terem deixado registrado suas existências por meio dos diários. De alguma forma senti que por mais simples que seja nossa atitude diante de uma grande causa ela sempre será válida. Estamos diante de uma ficção, mas que sabemos ser e ter sido realidade de muitas mulheres. Maria Clara e Mariana,  não se deixaram vencidas pela guerra, pelo contrário são provas que vale a pena continuar lutando, seja por nós, seja por aqueles que ainda virão. Seja para continuar lutando.

Há um fato que ainda não contei, na Gávea algo que permaneceu em comum entre as duas histórias foi um certo casarão, onde morou Maria Clara. Um lugar que despertava a curiosidade de Mariana e  por vias do destino local de trabalho de Victória sua prima. É Victória por sinal que se torna a grande narradora desta história e que mesmo sendo mais "livre" nos apresenta a questão crucial do livro. O que restou de nós, ou ainda o que resta de nós?

A ligação entre as três, vou deixar para você conhecer na leitura do livro. Eu diria apenas que foi um nó muito bem dado pela autora. Mas não um nó cego, um nó de marinheiro daqueles bem experientes e que por isso mesmo dá gosto de se observar e quem sabe aprender 

Restos de nós, não é uma história fraca, tampouco uma história aterrorizante, em minha opinião trabalhando com fatos ficcionais Bia Onofre traz discussões sobre aquilo que é real para nós. Para o que precisamos hoje abrir nossos olhos e lutar, sem deixar para os amanhãs.

Bia me fez perceber o quanto o olhar para traz e seguir em frente é necessário, mas mostrou também que nada se faz no alvoroço. Não podemos fazer para ontem, não podemos deixar de fazer hoje, mas ainda é tempo de organizar o pensamento e fazer o certo, que neste caso,  creio que seja única e exclusivamente a busca pela liberdade.

O fato é que um nó se fez aqui dentro do meu coração e a cada página ele ia destravados muitos
outros. Não posso dizer que não adorei, principalmente quando a própria Bia me mostrou que é mais do que possível destravar barreiras. Ela apareceu aqui, me fez uma linda surpresa, me mostrou que acordar assustado pode dar um dia de grandes surpresas. Fui reler o que já tinha lido para ouvir de fundo a voz da autora. E acredito que foi a melhor coisa que fiz.

Dois diários, três mulheres, o mundo e as escolhas, diante delas as realidade,  um pouco mais a frente a luta. Nesta história a persistência esteve por todos os lados, independente do que nos trouxe seu final.

Bia, muito grata pelo convite, parabéns pela obra tão magnífica que você me apresentou e pela sua alegria. Valeu muito a pena ter lido, relido e refletido sobre sua obra. Espero que muitas pessoas queiram e tenham a oportunidade de conhecê-la.


 Escrito por   
Vanessa Vieira