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O entusiasmo mórbido dominava por suas entranhas. Se lhe tivessem visto os olhos, e dito meias dúzias de coisas boas, hoje nada lhe jorraria se não amor. Mas jorrou sangue, sua vida, suas vontades. Afogados no mar vermelho encontrou-se talvez um sonho ou outro. Uma vontade aqui e ali. Espatifados na bagunça não arrumável. Talvez devesse ter ido ao boteco da esquina conhecer a mulher loira que trabalha lá. Uma graça de bom humor e simpatia. Vive aos berros com o menino que sabe se lá de onde veio. Talvez desistisse ao ver que a sorte era não ser o garoto, em sua vida de gritos e orgia. Ou não ser ela, lançada a prostituição. Talvez a sanidade lhe viesse ao cruzar com aquele pobre homem jogado a rua, após mais umas belas doses tomadas no botequim da loirona infeliz. Meu caro, quase cego, tem dois filhos marmanjos que sequer lembram seu nome. Haveria de emprestar a arma a ele, pobre coitado que trabalhou sua vida todinha e vive assim, na sarjeta. Haveria de se sentir o homem mais feliz do mundo se conhece o tal filho do bebum que se encharcou no boteco da loirona que berra com o filho. Perdido na vida, haja trabalho que lhe satisfaça. Mas há massa cinzenta pelos cantos, tem polícia pela casa. Tem corações perdidos gritando pela falta. Tem um homem a menos nos índices de população.

Texto de Vanessa Ribeiro