Resenha: Trilogia A Seleção

Título: Trilogia A Seleção
Autor (a): Kiera Cass
Editora: Seguinte
Resumo: "A história se passa num futuro alternativo, em um país chamado Illéa: uma monarquia em que a sociedade é divida em castas. Os eventos ocorridos são narrados por sua protagonista, America Singer, uma jovem de casta Cinco que entra para A Seleção, onde vem a competir com outras 34 garotas pela mão do Príncipe Maxon, assim como o título de princesa e futura rainha de Illéa." (Fonte: Wikipedia)


Bom, acho que a maioria das pessoas conhece a história da série A Seleção. Esses livros acabaram se tornando famosos e muita gente morre de amores por eles. Infelizmente, eu não sou uma dessas pessoas. E nessa resenha vou explicar o motivo. Embora eu teça, abaixo, observações gerais sobre o enredo e os personagens, irei dar mais atenção aos estereótipos de gênero presentes nessa trilogia, uma vez que estes foram o que mais me incomodou. Quem quiser, depois, discutir sobre esses pontos comigo, por favor, coloque seus pensamentos nos comentários. Ficarei feliz em conversar! Sem mais delongas, passemos às minhas impressões.

Assim que comecei a leitura achei a história frívola e possuidora de pesadas doses de sexismo. E admito que, até agora, acredito que muitos dos incidentes a atrapalhar o amor de Maxon e América foram mecanismos de plot precários. Ao ler o terceiro livro, no entanto, mudei um pouco minha ideia em relação à história e ao machismo nela contido. Mas só um pouco.

No terceiro livro percebi que a personagem principal, apesar de algumas vezes insegura, era forte e lutava pelo que queria. Por ser uma adolescente, várias inseguranças fazem parte de sua personalidade, mas não achei a presença desses traços algo negativo. Pelo contrário: pessoas têm, de fato, medos e incertezas e a presença destes no feitio da protagonista fizeram-na mais verossímil e mais digna da empatia do leitor. O fato dela lutar por seus ideais e princípios, apesar de todos os perigos e dúvidas enfrentados, também fazem de América uma personagem interessante. 

Fiquei contente ao perceber que o terceiro livro desfez o clima de competição entre as moças participantes da Seleção. O sentimento de sonoridade tomou conta delas e isso me fez particularmente feliz, uma vez que a cultura derivada do patriarcado procura minar as boas relações entre mulheres e somos diariamente expostas a esse tipo de ódio. Um livro que passa uma mensagem de amizade e aceitação feminina, em um mundo que preocupa-se em fazer das mulheres inimigas umas das outras, é refrescante. Pena que essa mensagem só tenha sido entregue no último livro da série. 

Apesar desses pontos positivos, ainda é possível encontrar traços de estereótipos sexistas no comportamento dos personagens. Maxon, por exemplo, tenta sempre proteger América, como se ela fosse um ser frágil e quebradiço. Isso é demonstrado em pequenos gestos, como quando o príncipe quis impedir a garota de ir com ele ao encontro dos rebeldes, ou quando ele fez de seu corpo um escudo para protegê-la de uma possível ameaça ao saírem do caminhão onde se escondiam.  Vemos, com tais gestos, uma sutil forma de machismo, pois ao tratá-la como um ser delicado, que precisa de proteção, ele não a vê como igual e é conivente com os estereótipos que retratam mulheres como o sexo frágil. Algumas pessoas podem dizer que esses comportamentos são apenas demonstrações do afeto de Maxon, todavia, eles cheiram a reminiscências de cavalheirismo, e é assunto batido o fato de o cavalheirismo ser apenas uma das manifestações do machismo. 

Além disso, várias vezes vemos tanto Maxon como América afirmarem que ela irá pertencer a Maxon, no entanto, em nenhum momento o contrário foi mencionado. Mais um estereótipo sexista pode ser encontrado aqui, pois vemos uma discreta disseminação da ideia da mulher como propriedade do homem. Caso o contrário tivesse sido mencionado ao menos uma vez, poderíamos vislumbrar um equilíbrio na relação, pois os personagens veriam-se como pertencentes um ao outro, logo, parceiros em pé de igualdade.

Outro ponto a ser mencionado diz respeito à necessidade que América demonstra de ser guiada por homens. Em várias cenas, a protagonista afirma precisar de Aspen ou de Maxon para guiá-la rumo ao encontro de si mesma, ou a um futuro melhor. Enquanto que, em uma esfera individual, podemos escolher quem quer que seja como nossa muleta emocional, numa perspectiva social, essa atitude da protagonista também reforça outro estereótipo: o da mulher dependente do homem. Uma vez que o livro é um veículo de comunicação de massa especialmente dirigido para um público jovem, a presença de tais estereótipos se faz relevante e sua discussão, necessária.

No fim das contas, a trilogia é divertida? Mais ou menos. Fora a marcante presença de sexismo, a quantidade de melodrama piegas é exacerbada. Além disso, me senti várias vezes enrolada pela autora, por causa do puxa-encolhe entre Maxon e América. Tanto problema bobo poderia ter sido evitado se o casal tivesse simplesmente conversado! Provavelmente a série teria tido um fim precoce, caso ambos os personagens tivessem tido a sensatez de falar de seus problemas, no entanto, eu não acho que isso fosse prejudicar a história (ao contrário). Ainda sobre a qualidade da trilogia: a meu ver, os dois primeiros livros não são tão legais quanto o último, pois este vai além da busca do príncipe encantando. Os tomos um e dois focam muito em tal busca, a qual não passa de um grande clichê piegas e sexista que engloba vários outros clichês presentes na história. Talvez se a narrativa dos três livros tivesse focado mais na revolução e nas problemáticas sociais desenvolvidas na última obra, a série tivesse sido melhor.

No mais, gostaria de dizer que, apesar da presença dos estereótipos acima mencionados, a personagem principal adquire agência no decorrer da história, então, nem tudo está perdido. Melhor trilogia que li? Definitivamente, não.  Leria novamente? Não, tenho mais o que fazer nessa vida. Me arrependi de ter lido? Quase, mas o livro três veio salvar a pátria. 

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