Foto Ildo Silva
Olhando assim eu diria que foi ontem. Ainda consigo lembrar de muitos detalhes. As casas, as ruas, as pessoas... O tempo aqui dentro não passou, mas se foi e passou a fazer parte de uma história cheia de desdobramentos e, por isso mesmo, uma linda história. 

Agora escrevendo esta carta é como se eu ouvisse o narrador da vida contando-a:

"Aos 14 dias do mês de agosto do ano de dois mil e dois, um casal e suas duas filhas entraram na cabine de um caminhão que estava com a carroceria cheia. Guardaram lá seus móveis, pois estavam de mudança e seguiram viagem percorrendo quase 300km para aquela que seria sua nova casa. 

Saíram por volta das 21h deixando atrás de si uma casa cheia de lembranças, uma rua com marcas de suas caminhadas, pessoas com 'marcas' de suas palavras e lágrimas que diziam o quão importante fora a convivência para os dois lados. O que se ia e o que ficava.

A casa nova chegou, a vida nova também. Todo mundo foi se refazendo, ou melhor, continuou a vida. Mas para a filha mais velha, aquela história ainda estava mal contada. Seguiu seu rumo, mas sua casa antiga ainda estava forte e grande dentro de si. Fechou seus olhos para a vida nova. Estava no automático daquilo que se chama viver. 

Dois anos, cinco anos, seis anos... E foi então, que a pequena, agora moça, retornou ao seu antigo lar. Vendo-o habitado por outros tomou ciência de que aquele não era mais o seu lugar. A rua, antes cheia de lama agora estava calçada, as casas fechadas por cercas de arame, hoje têm muros e portões, as estradas enormes, agora parecem pequenas para aquela menina quase mulher. E as pessoas, nunca mais seriam as mesmas... E não eram!

Deu meia volta e, agora sim, fez sua despedida daquela casa. Estava pronta para viver sua vida nova, mesmo sabendo que precisaria de um caderno, imaginário que fosse, para anotar tudo aquilo que, por alguma despedida mal feita, deixara de viver em sua nova casa. 

É noite agora e amanhã 14 de agosto de dois mil e quinze,  treze anos serão completos desde o dia daquela repentina e necessária mudança. E a menina, que foi moça e agora é uma mulher, escreve esta carta para dizer mais um adeus e para celebrar mais uma vitória. 

Adeus porque lembrar de um tempo bom é sinal de que já passamos por ele. Vitória, porque poder lembrar é, também, uma forma de reviver e se reprogramar..."

Foto da foto| edição Vanessa Vieira