Autor: David Ebershoff
Tradutor: Paulo Reis
Editora: Fábrica 231
Páginas: 368


Sinopse: "Inspirado em uma história real, este romance inquietante, narrado com elegância e sutileza únicas, apresenta uma trama ousada que transcende os limites de sexo, gênero e localização histórica. A prosa rica e o discurso emocionado transformam esta obra numa história de amor poderosa, que marcará para sempre a vida do leitor" (Fonte: site da Livraria Saraiva).




Assunto relacionados a gênero me interessam bastante, por estarem ligados ao movimento feminista, do qual me orgulho de fazer (uma modesta) parte e por oferecerem reflexões instigantes. Assim sendo, ao tomar conhecimento da existência desse livro, não pude me furtar de comprá-lo e de começar a leitura imediatamente.

Baseado em fatos reais e ambientado entre as décadas de 1920 e 1930, A Garota Dinamarquesa conta a história de uma das primeiras pessoas a se submeterem à cirurgia de reafirmação de gênero: Lilly Elbe, antes conhecida como Einar Wegener. Acompanhamos, nesse livro, o desabrochar de Lilly, a qual veio ao mundo quando a esposa de Einar (a pintora Greta) vestiu seu marido com roupas femininas para poder usá-lo como modelo em um quadro. 

A narrativa dessa obra é muito íntima, retratando com cuidado o turbilhão interior que formava a vida de Lilly e Greta. A história centra-se na relação de ambas e no papel que Greta teve no surgimento de Lilly. O autor deixa claro que, embora a protagonista tenha sido uma pessoa real, a história foi somente inspirada na vida dessa mulher trans, tendo todos os detalhes do enredo sido inventados. Mesmo assim, o escritor respeitou pontos-chave da biografia de Lilly, em especial a visão que ela tinha de si mesma e de Einar.

Essa visão, aliás, merece um comentário à parte. Lilly via Einar como uma outra pessoa: não como a si mesma no passado, mas como um parente distante, ou um outro ser. O escritor afirma, em entrevista anexada ao final do livro (na versão inglesa, à qual tive acesso), que as pessoas trans da atualidade provavelmente não têm essa visão de si mesmas, no entanto, a forma de Lilly encarar sua transição foi verídica (e pode ser confirmada na autobiografia "From Man into Woman"). Assim sendo, Ebershoff optou por preservar esse traço da personalidade da protagonista.

Mesmo não oferecendo uma forma atual de insight na mente de uma pessoa trans, a leitura do livro é muito interessante, principalmente pelo fato de ser uma história de amor. Sim, um romance. Como eu disse anteriormente, o relacionamento entre Greta e Lilly é o foco da obra, a qual acompanha a transformação dos sentimentos que ambas sentem, à medida em que Einar passa a se tornar Lilly. 

Para falar a verdade, essa foi a minha história de amor favorita de 2015. Por quê? Simplesmente devido ao fato do amor de ambas ter continuado a existir durante todo o processo, apesar das dificuldades e mudanças. Ele não permaneceu o mesmo, vejam bem. Einar mudou e, assim, os sentimentos que ele (e depois, Lilly) nutriam por e provocavam em Greta também sofreram transformações; não houve, contudo, extinção. O amor seguiu presente e forte, mesmo se manifestando de maneira distinta.

Embora a obra discuta os limites de sexo e gênero e trate de um tema atual e relevante de forma bonita e intimista, a resiliência dos laços afetivos existentes entre Greta e Lilly, bem como a complexidade de seu relacionamento, foram, para mim, os pontos mais significativos do livro. Afinal, as duas se gostaram muito, independentemente do gênero com o qual uma delas se identificava. E isso, meus amigos, é uma linda mensagem de aceitação, respeito e afeto.