Eu devia ter vergonha de contar uma história assim? Não sei! O fato é que tive por muito tempo. Porém, entendi que a vida nos ajuda a amadurecer e perceber que lá, no fundo, há coisas que nos acontecem para nos colocar no prumo e mudar nossos destinos.
 
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Ocorre que, quando eu era menina, lá com meus onze anos uma madrinha de minha mãe foi até nossa casa para cuidar de mim e da minha irmã. Na ocasião minha mãe tinha que viajar e não poderia nos levar. Estava em busca de um emprego novo. Mas isso é outra história. 
 
A madrinha era idosa, mas vigorosa, alegre, cheia de energia e logo conseguiu nos encantar. Sempre morou em cidade grande e suas histórias sempre me faziam viajar. Em uma de nossas conversas ela contava que gostava muito de ler e mencionou que a leitura era algo importante para a vida, que todo mundo deveria ler sempre porque a leitura nos fazia crescer. Concordei com ela e em seguida ela me lançou a pergunta que pode ter mudado o rumo da minha história. 
 
Que bom que você pensa assim, minha querida! Então, me diga. Qual é o seu escritor favorito?” Na hora eu gelei. Escritor? Ainda pestanejei um pouco, fingi que não havia escutado ao que ela respondeu. “Isto, qual o seu autor favorito, você tem um?
 
Engoli a seco e respondi ligeiro que tinha, porque “autor” era uma palavra que a professora havia falado na última quando apresentou uma música que dizia assim: “era uma casa muito engraçada/ não tinha teto, não tinha nada…” Lembrei que a professora disse que a música foi escrita pelo autor Vinícius de Moraes. Um nome que eu sempre encontrava no livro didático daquele ano. 
 
Na época eu era uma menina muito dispersa e, embora gostasse de realizar as tarefas da escola, algumas coisas importantes passavam sem que eu percebesse. Porém, a pergunta da minha tia me fez olhar para o livro de fora diferente. E a partir de então comecei a procurar pelos autores nos livros didáticos e naqueles outros livros que, loguinho, eu descobriria serem literários. 
 
Mudei de cidade, mudei de série e na escola para onde fui tinha uma colega de sala que vivia com livros na mão. Achei aquilo bacana e sempre quando ia na biblioteca com ela, procurava por Vinícius. Queria ler mais sobre ele. Conhecer "aquele cara" que me salvou da ignorância literária. 

Eu queria ler, às vezes não tinha nada. Então eu lia as revistas e meus próprios livros didáticos. Como eu era calada, não dizia aos meus pais que gostava de ler ou mesmo que queria ler. Mas de alguma forma eles descobriram. (risos)
 
Descobri isto quando lá entre os meus 13/14 anos ganhei do patrão da minha mãe, a obra Casa Forte, escrita pela Danielle Steel. Primeiro livro pude chamar de meu. A leitura era densa para uma jovem leitora, mas devorei o livro em uma semana. 
 
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Quando meus pais espalharam a notícia, a pessoa que me presenteou ficou feliz e me questionou sobre quem era o meu autor favorito. Lembrei-me da minha tia, madrinha da minha mãe. Mas desta vez, não pestanejei e respondi de cara. "Vinícius de Moraes!" Na semana seguinte recebi de presente quatro obras do autor novinhas só para mim. Foi mágico.
 
Hoje a minha casa é cheia de livros, minha arte é a literatura e a leitura é para mim a magia da vida que quero compartilhar com meus filhos e quem mais se achegar. E desde então, todas às vezes que me falam sobre o autor favorito. Lembro-me da pergunta que me envergonhou, mas que, ao mesmo tempo, me fez enxergar.

Que possamos, como leitores, autores e influenciadores, sair por aí espalhando nosso amor pelos livros, para que mais e mais meninos e meninas encontrem o encanto da leitura.

 

E você, tem uma história literária? 
Me conta?